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Golpe fatal

Fernando Rosa – Na semana passada, fechando um ciclo da operação Lava Jato, a Caixa Econômica Federal pediu a falência da construtora Odebrecht, segundo informaram vários órgãos de imprensa. Por outro lado, o Banco do Brasil também solicitou à Justiça a anulação do plano de recuperação judicial apresentado pela Odebrecht em junho. Em resumo, duas instituições nacionais – do Estado brasileiro – claramente orientadas para dar o golpe de morte na maior empresa privada do país e abrir o mercado para suas concorrentes norte-americanas

Isso não tem nada de novidade, lembrando que a indústria pesada brasileira é um dos alvos centrais da operação Lava Jato, em especial a Odebrecht. As empreiteiras brasileiras ocupavam 2,5% do mercado mundial do setor, e a empresa fundada por Emílio Odebrecht estava presente em dezenas de países, em praticamente todos os continentes, e vinha vencendo concorrências internacionais, inclusive nos EUA – entre elas, para reformar o porto de Miami (foto). A sua eliminação, assim como o assalto ao pré-sal, a inviabilização do programa nuclear brasileiro e a exclusão do ex-presidente Lula do cenário político foram e continuam sendo objetivos centrais da operação Lava Jato.

Em seu livro “Nada menos que tudo”, o ex-procurador geral da República, Rodrigo Janot, tenta justificar o seu papel e o da operação Lava Jato no desastre econômico e social em que mergulharam o Brasil. Acusando a “esquerda” de promover “teorias da conspiração”, Janot nega que a colaboração com o Departamento de Justiça dos EUA tenha favorecido as empresas norte-americanas. No entanto, memorando assinado em 1º de agosto, entre o governo Jair Bolsonaro e o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Wilbur Ross, abrindo o mercado nacional do setor, desmente o ex-chefe da PGR.

A gravidade da situação pode ser dimensionada no fato de que as empreiteiras nacionais historicamente respondem por metade da formação bruta de capital fixo do país – indicador que mede a capacidade produtiva nacional. Segundo o jornal “O Empreiteiro”, entre 2014 e 2017, o setor registrou saldo negativo entre contratações e demissões de 991.734 vagas formais (com preponderância na região Sudeste). Ainda segundo o jornal, entre 2015 e 2016, por exemplo, Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa tiveram queda em suas receitas brutas de, respectivamente, 37%, 31% e 39%.   

A Odebrecht é o caso mais emblemático, destacam em recente artigo no jornal Valor Econômico, o professor Luiz Fernando de Paula, do IE/UFRJ e Coordenador do Geep/Iesp/UERJ, e Rafael Moura, doutorando de Ciências Políticas do Iesp/UERJ. Segundo eles, a maior construtora nacional tinha, em 2014, um faturamento bruto de R$ 107 bilhões, com 168 mil funcionários e operações em 27 países. Em 2017, em consequência do ataque aberto da operação Lava Jato, seu faturamento era de R$ 82 bilhões, com 58 mil funcionários e atividades apenas em 14 países.

É sabido como operam os interesses econômicos e geopolíticos norte-americanos nessas situações, a exemplo do ocorrido no Iraque, após a Segunda Guerra do Golfo, que destruiu a infraestrutura do país. Assim como lá, as empresas norte-americanas passarão a operar as grandes obras nacionais, em lugar das empresas brasileiras excluídas do mercado pela guerra judicial-política-miliciana. Com isso, estamos ameaçados de perder mais de cinquenta anos de investimento em engenharia, em inteligência, que resultará em retrocesso tecnológico e dependência externa.

A Lava Jato nunca foi uma operação para combater a corrupção, mas sim um cavalo de Tróia para atacar o Estado, destruir a economia e afastar o Brasil do BRICS. Com a operação Lava Jato combinada com o golpe de Estado, os EUA não apenas afastaram as empreiteiras brasileiras do mercado mundial, mas abriram o nosso mercado interno de infraestrutura às suas empresas. Assim sendo, tão importante quanto defender o pré-sal, a Petrobras e a liberdade de Lula, é preciso enfrentar o debate para impedir mais este golpe fatal contra o desenvolvimento nacional.

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