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Hay que amadurecer

Fernando Rosa – A queda do presidente Evo Morales, na Bolívia, é um sinal de alerta definitivo para a esquerda latino-americana. O fato recente evidencia o dilema que passamos a viver no continente sul-americano, desde o primeiro golpe de Estado em Honduras. A partir de então, uma nova série de golpes se sucederam, com governos populares derrubados, apesar dos positivos resultados sociais e econômicos. 

A totalidade dos golpes no continente sul-americano expõe a dificuldade da esquerda e dos setores democráticos em sua relação com o Poder. Não basta assumir os governos e trabalhar para os mais pobres, reduzir os indicadores sociais negativos, respeitar republicanamente as instituições. É preciso assumir o Poder de Estado em todas as dimensões, seja econômica, jurídica, militar, e colocar as instituições a serviço dos interesses nacionais.

O mundo está imerso em conflitos, que vão de Hong Kong ao Oriente Médio, passando pela Europa e chegando até a América do Sul. A crise, no entanto, tem um epicentro irradiador, localizado exatamente no coração do imperialismo em decadência, nos Estados Unidos. É dos Estados Unidos que parte o comando para impedir o Brasil de existir enquanto Nação, a ordem para impor a recolonização selvagem do quintal.

A captura das instituições nacionais é parte determinante dos processos golpistas, o que tem levado a maioria delas à falência. Se antes já não se perfilavam inteiramente ao lado da Nação, a pressão do imperialismo em crise está submetendo cada uma delas aos seus interesses. Exemplo maior dessa ação é a Operação Lava Jato, aríete dos negócios e da geopolítica dos Estados Unidos.

Diante disso, é urgente amadurecer a percepção da realidade econômica, política e geopolítica para defender as Nações, os povos. O tabuleiro da nova guerra é mundial, impõe alianças regionais, internacionais, geopolíticas capazes de constituir força econômica, política e militar. O exemplo da Venezuela, que resiste ao bloqueio econômico e às agressivas ameaças militares dos Estados Unidos, é evidente.

O fim do mundo unipolar inaugurou a terceira guerra, diante do que reduzir a realidade à disputas eleitorais é uma espécie de “terraplanismo” político. É preciso avançar para além disso, almejar o Poder de fato, até mesmo para garantir os resultados eleitorais e a própria democracia. As Nações precisam de instituições que defendam a soberania, o desenvolvimento, os direitos de seus povos.

A criação do partido Aliança pelo Brasil dá forma orgânica, política, institucional para a milícia que emergiu com Bolsonaro, avalizada pelo irresponsável apoio dos militares. Assim, Bolsonaro empalma o campo da direita e sepulta definitivamente o “centro”, varrido da vida nacional nas últimas eleições. O caráter de seu “programa”, de conteúdo claramente fascista, não deixa dúvida de seu desprezo pela democracia, pelas instituições e pelo povo.

A radicalização política, portanto, é decorrência da profunda crise do neoliberalismo, e da aposta do sistema financeiro em eliminar qualquer alternativa popular. Assumi-la, do ponto de vista dos povos, é uma necessidade para impedir a exploração desumana que tentam impor no Brasil, na região e no mundo. Uma imposição histórica, inevitável para que os povos não sejam privados da necessária liderança diante da crescente e inevitável explosão social.

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