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A recolonização selvagem

Fernando Rosa – A retaliação do governo Bolsonaro aos navios iranianos no Sul do Brasil não deve deixar mais ninguém com dúvida sobre o que está em jogo no momento atual. O governo Bolsonaro escolheu seu lado na guerra, o lado dos Estados Unidos, de Trump e do submundo da política norte-americana. A indicação do filho Eduardo Bolsonaro é a aposta do pai e seu governo em manter sob total controle a diplomacia e as relações com a sede do Império.

É preciso, portanto, entender o que está acontecendo além da aldeia, ou seja, no mundo, para articular uma reação efetiva ao projeto em curso no país e na região. O Brasil, assim como a Venezuela, está no centro de uma guerra de reacomodação das forças mundiais, atacado violentamente pelo sistema financeiro internacional. Já não basta somente reagir às maldades do atual governo, é preciso denunciar seus objetivos e interesses estratégicos.

O jogo está sendo jogado, mas é salutar reconhecer, antes de mais nada, que o clã Bolsonaro vem se fortalecendo na disputa política na sociedade e internamente no governo. O processo de desmoralização do Exército é brutal, com a rendição dos generais à sua política vende-Pátria de submissão aos Estados Unidos. O sistema judiciário, exposto pelas denúncias sobre a Lava Jato, opera o “lawfare” contra Lula e protege o filho do atual presidente.     

Por outro lado, não estamos diante de um governo de estúpidos, sem propostas, que vai cair a qualquer momento pelas mãos dos generais, como vaticinam angustiados analistas. Trata-se de um projeto com apoio do imperialismo norte-americano, de um Exército humilhado e submetido, da classe média – mobilizada – e das milícias. E, ao contrário da dispersa oposição, tem consignas claras de agitação, mobilização e difusão de propaganda ideológica.  

O governo Bolsonaro, portanto, não só tem apoio como tem um programa, e está impondo as medidas em toda sua profundidade, com aval do Congresso Nacional. O programa é claro: quebra de direitos sociais, privatizações, fim do ensino gratuito e dos serviços de saúde, colocando o Estado a serviço do capital financeiro. É o programa de recolonização selvagem do imperialismo norte-americano, a quem Bolsonaro não esconde sua absoluta fidelidade.

A denúncia do site The Intercept sobre a Lava Jato é a mais importante ação política da atual conjuntura, embora mal aproveitada pelas oposições, que insistem em tergiversar sobre o verdadeiro caráter da operação. Os diálogos divulgados não mostram apenas as manobras jurídicas, mas expõem o caráter antinacional da Lava Jato e a quem serve. A cada nova denúncia fica mais claro que a “operação” atendeu interesses externos.

O conluio entre Moro e Dallagnol, com a conivência do STF, apontou para a Petrobras, para a indústria pesada brasileira e para o programa do submarino nuclear. Hoje, fica claro também que, além da perseguição ao ex-presidente Lula, evitaram qualquer investigação em relação aos bancos. Diferente do combate à corrupção em outros países, a Lava Jato mirou nas empresas, na sua destruição, no ataque à produção.    

A sociedade brasileira e suas lideranças especialmente, portanto, precisam acordar da visão “caipira” do mundo que historicamente fundamenta os debates nacionais. Por outro lado, já passou da hora de parar de rir de Bolsonaro, ou seja, naturalizar o que é muito sério, planejado e executado nas minúcias. Também, de abandonar a ingenuidade republicana que, agora, “cobra” que o atual governo adote o programa da oposição.

Em meio ao tiroteio das redes sociais, nada parece abalar a “opinião pública”, dizem alguns, ansiosamente aguardando as denúncias do corajoso jornalista Glenn Greenwald. Mas, diante disso, muitos ainda insistem em não ver o óbvio, que a quase totalidade das instituições mediadoras estão falidas e comprometidas funcional, política e moralmente. A única instituição íntegra, politicamente de pé, capaz de vertebrar a Nação, está presa em Curitiba.    

A denúncia feita pelo The Intercept/Folha sobre o envolvimento da Lava Jato nos assuntos internos da Venezuela, por outro lado, evidenciam a extensão regional da Lava Jato. Como uma espécie de “Operação Condor” jurídica, seus operadores tentaram utilizar a Lava Jato para favorecer a agressão ao país vizinho. É mais uma evidência de seu papel antinacional, anti-regional e serviçal aos interesses econômicos dos Estados Unidos.      

O Brasil, assim como a América Latina, é alvo de uma criminosa política de regressão colonial, sem precedentes na história. A agressividade do imperialismo está empurrando milhões para a miséria e elevará a luta de classes na região a um novo patamar. É preciso estar à altura desse novo momento para reconstruir o Estado Nacional, o desenvolvimento econômico, científico e educacional e o bem-estar social.

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