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Rondon ou Custer

Fernando Rosa – “Estou procurando o primeiro mundo para explorar essas áreas (terras indígenas da Amazônia) em parceria e agregando valor. Por isso, a minha aproximação com os Estados Unidos”.

Isso não foi dito por Bolsonaro em uma reunião de investidores, de empresários estrangeiros, ou mesmo nacionais interessados em explorar as riquezas da Amazônia brasileira.

Assumindo o papel de preposto dos Estados Unidos, Bolsonaro fez a declaração durante cerimônia de formatura de paraquedistas no Rio de Janeiro, no último sábado, 27.

Em sua fala, Bolsonaro questionou as reservas indígenas para defender a exploração das reservas minerais, claro, pelas mineradoras norte-americanas. 

A primeira consequência imediata da fala de Bolsonaro foi liberar os pistoleiros e desencadear a violência na região, com o assassinato de lideranças indígenas . 

A cada novo dia, Bolsonaro submete o Exército em especial a ultrapassar limites da humilhação, do acovardamento, da quebra dos mais caros valores da farda.

Desta vez, com a declaração sobre a Amazônia, ele parece ter imposto o teste definitivo para a subserviência do Exército aos seus nefastos planos entreguistas.

Ao se calar diante das declarações do capitão Bolsonaro, o Exército brasileiro está aceitando desempenhar as funções de “guarda pretoriana” do Império norte-americano.

Assim como qualquer Exército, o Exército brasileiro existe para defender a soberania do Brasil, não para proteger interesses políticos e econômicos externos.

Mais grave ainda, quando para isso assume o papel de “capitães do mato”, elegendo como seus “inimigos” o próprio povo brasileiro, vítima maior dos invasores.

E de nada adianta se calar, se fingir de mortos ou, pior, chamar o irmão mais velho, para tentar domar o “bode” que já está comendo até as paredes da casa.

O momento histórico exige dignidade, compostura e patriotismo não apenas de homens e mulheres, mas também das instituições que tem o dever de zelar pela defesa da Nação.

O Brasil está sofrendo uma recolonização selvagem sem precedentes, com destruição do Estado Nacional, assalto às suas riquezas e escravização de seu povo.

Em tais circunstâncias, nenhum Exército do mundo abandona defender a soberania, o patrimônio nacional e a integrida­de territorial, como parece estar acontecendo.    

Não é a primeira vez que algum vende-Pátria promete entregar a Amazônia aos EUA, traindo o compromisso do general Rondon de ocupação soberana da região. 

A tentativa mais ousada ocorreu no final dos anos quarenta, no pós-Segunda Guerra, com o enclave chamado Instituto Internacional da Hiléia Amazônica. 

Acusado de imperialista pelo senador Arthur Bernardes, e com veto soberano do Comando Maior do Exército, o projeto acabou derrotado no Senado Federal.

Agora, vemos a proposta retornar anunciada nas barbas do Exército, ou pior, dentro do ambiente em que esse tipo de proposta deveria ser rejeitada.

No comando da barbárie está um capitão, considerado “mau militar”, que aposta diariamente na divisão, no confronto e no esfacelamento da Nação brasileira.

A irresponsabilidade de investir, de apoiar politicamente, de engrossar sua administração e de fazer vistas grossas aos seus desmandos já foi longe demais.

A perpetuação dessa situação, por um cego alinhamento político, ou por ocupação de cargos bem remunerados, cobrará um alto preço dos militares.

Não faz sentido a Nação brasileira sustentar uma estrutura que não apenas ignora suas funções, mas que atua contra os interesses a que juram defender.

O Exército está em uma encruzilhada, entre seguir perfilado ao general Rondon ou, definitivamente, se render ao comando invasor das tropas do general Custer.

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