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Renda universal ou a xepa neoliberal

De boas intenções o inferno está cheio, diz o ditado popular. Na política nacional e mundial, a versão do ditado atende pelo nome de “combate à desigualdade”, vendido na forma de uma “renda universal”, tese defendida por certos economistas e políticos.

Na verdade, se trata da mais nova fraude política do newliberalismo, incluindo neoliberais de esquerda – sim, isso é possível. A tentativa de buscar a sobrevida do sistema financeiro, associado às grandes empresas de tecnologia.

  • Migalhas dormidas do teu pão
    Raspas e restos
    Me interessam
    Pequenas porções de ilusão
    Mentiras sinceras me interessam
    (Cazuza)

O novo placebo neoliberal chegou ao Brasil no final de 2019, pela boca dos tucanos que bancaram o golpe de Estado, em 2015/16. Em outubro, em artigo na Folha de S. Paulo, Armínio Fraga lançou o discurso do “combate à desigualdade”. A orquestra, então, entrou em ação.

“Há no ar uma sensação difusa de injustiça social e frustração”, referindo-se a situação do Chile naquele momento, onde, segundo ele, “o Consenso de Washington no final das contas parecia ter dado certo”, disse o trombeteiro da novidade imperial. As palavras de Armínio ganharam as telas da Rede Globo e outros espaços nobres.

Atrás de Armínio Fraga, vieram dezenas de “madalenas“, incluindo todos que criticam Bolsonaro, mas que defendem a política econômica privatista e ultraneoliberal do ministro Paulo Guedes. Uma lista que vai de Paul Leman, passando por Luciano Huck, Fernando Henrique Cardoso e vários porta-vozes de bancos.

A posição reverbera a orientação internacional do sistema financeiro e das grandes corporações econômicas. Em agosto daquele ano, a Business Roundtable, que reúne 181 CEOs das maiores empresas do mundo, revisou a posição sobre a atuação de seus “associados” junto aos mercados mundiais.

Antes voltada para a maximização dos lucros dos acionistas, a associação passou a defender que todos sejam beneficiados – “clientes, funcionários, fornecedores, comunidades e acionistas”. A nova posição, na verdade, tinha o objetivo de alertar os operadores internos sobre os limites da espoliação internacional.

A questão, portanto, não é combater a desigualdade, como defendem os novos neoliberais. A crise mundial chegou a uma situação em que apenas “mitigar” a pobreza não aplacará a explosão social. É preciso romper com a super-exploração do sistema financeiro. A pandemia apenas turbinou a revolta futura.

A nova realidade exige a conquista da verdadeira igualdade, sem meias-palavras, ou tergiversações acadêmicas. A riqueza do mundo está concentrada nas mãos de 1% de multimilionários. Eles detém o equivalente ao acumulado por outros 99% dos demais seres humanos. Não existe “almoço grátis” neste banquete.

O “combate à desigualdade” apenas disfarça a necessidade de mudanças estruturais nas relações econômicas.  Submeter-se à sua lógica afasta o povo e os trabalhadores do centro da disputa política real. A versão “lata -velha” do neoliberalismo só interessa a quem, na realidade, nada quer mudar.

Ao Brasil se impõe um profundo e radical projeto de refundação econômica, industrial, tecnológica, militar, institucional e de informação. Também uma reinserção na geopolítica mundial, alinhando-se às forças políticas, econômicas e sociais emergentes com o fim do mundo unipolar.

É preciso reindustrializar o país, promover o desenvolvimento tecnológico, diversificar a produção. “Alimentar” os mais de 40 milhões de brasileiros afastados do mercado de trabalho no país com empregos, renda e dignidade.

Sem isso, o Brasil seguirá sendo uma colônia agrícola exportadora de ‘commodities’, com sobra da xepa para conter a revolta dos pobres. Um “fazendão“, como muito bem define o economista Márcio Pochmann.

A humanidade sempre andou para a frente e não será diferente com a nossa história, mesmo que aos trancos e barrancos. Mas é preciso superar velhas ilusões e apontar para o futuro, com base nos erros e acertos do passado – recente e distante.

Parafraseando a canção, a gente quer comida, mas também uma Nação e poder.

* Atualizado em 8/11/2020.

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